O programa “Marília Gabriela Entrevista” deste domingo, dia 14, recebe a jornalista Miriam Leitão, considerada um ícone do jornalismo econômico. Com quase 40 anos de carreira, ela conta um pouco sobre como foi a produção de seu segundo livro “Saga Brasileira, a longa luta de um povo por sua moeda”, lançado nacionalmente em maio. A entrevista também dá suas opiniões sobre a saúde econômica do Brasil na atualidade.

Aos 58 anos, Miriam Leitão começou a cursar jornalismo no Espírito Santo, mas acabou se formando em Brasília, apesar de ter começado a trabalhar antes mesmo de entrar na faculdade. Lidar há tantos anos com as variações da economia mundial exige dedicação. “Não me abalo com as notícias econômicas. Mas fico ligada em tudo porque eu tenho que explicar depois, e explicar de forma simples”, afirma.

No livro “Saga Brasileira”, a jornalista mostra um pouco da história econômica do país, com seus altos e baixos, passando por assuntos como a superinflação, a ditadura militar, o congelamento de preços e a suspensão das cadernetas de poupança. “Eu fiz o livro porque eu quis mostrar o que aconteceu. A economia tem que ser a base para construir o projeto nacional e não o centro dos problemas”, explica.

A jornalista conta ainda sobre a influência da família em seu trabalho. “‘O Plano Cruzado acabou: nós rimos seis meses e vamos chorar seis anos’, disse minha mãe. Aí eu entendi que os brasileiros estavam percebendo mais a economia e comecei a focar em explicar melhor, em ser útil”.

Miriam acredita que o brasileiro está atento ao que acontece na economia e sabe mais do que pensa. Segundo ela, episódio como a suspensão das cadernetas de poupança pelo presidente Fernando Collor de Mello foi um dos momentos mais marcantes da história recente do país: “Foi a maior violência econômica já feita no Brasil contra os brasileiros”.

A jornalista defende o Plano Real e lembra a época em que os preços subiam mais de uma vez por dia: “Em 15 anos, tivemos 13,3 trilhões% de inflação”. Segundo Miriam, apesar de tantas dúvidas que foram levantadas na época, após seis fracassos e cinco moedas, as mudanças foram positivas. “Precisavam mudar o nome para refazer os contratos, cortar os zeros. O Real foi um recomeço, e foi o que deu certo”, explica.

Por ser uma referência na área, Miriam é sempre questionada pela população sobre o futuro da economia nacional. “As pessoas querem saber se a inflação vai voltar. Não, daquele jeito não”, afirma a jornalista, quando questionada sobre o que mais as pessoas perguntam nas ruas. “Não que eu confie no governo, eu confio nos brasileiros. Quando me perguntam isso, eu fico ainda mais tranquila”, explica.

De acordo com Miriam Leitão, o maior temor dos brasileiros agora não deve ser a inflação, mas a facilidade com que o povo tem acesso a empréstimos e financiamentos. “O principal risco hoje é o endividamento. Pela primeira vez, temos crédito. Só que no Brasil o dinheiro é caro demais, as pessoas não têm essa noção”.

Quando perguntada sobre a crise que teve seu auge há três anos e ainda hoje impacta na vida da população mundial, Miriam é categórica em afirmar que a crescente conexão entre os países foi um fator determinante. “O dinheiro sai de um país e aparece em outro. O mundo das moedas ficou muito complicado, precisa de controle e transparência senão dá a confusão que houve em 2008”.

A respeito do Código Florestal, assunto pelo qual foi criticada publicamente por conta de um artigo, ela se defende. “O Brasil tem duas vocações: maior biodiversidade do planeta e grande protetor dos alimentos. Minha defesa do meio ambiente é que o agronegócio tenha sua matéria prima, ou seja, o ar, a água, a terra”.

Como mãe, Miriam se ressente por não ter passado mais tempo com os filhos, também jornalistas. E conta que troca o tempo todo sobre trabalho com seu marido, o sociólogo e cientista político Sérgio Abranches. Quando questionada sobre o Brasil, Miriam Leitão revela ser otimista. “Fazendo o livro, eu fiquei ainda mais confiante e consolidei minha visão sobre o país”.

Frase de Miriam Leitão: “Viver é muito perigoso” (Guimarães Rosa)

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