Cine arco-íris – 100 anos de cinema LGBT nas telas brasileiras (272 p., R$ 65,90), do jornalista Stevan Lekitsch. Fruto de mais de dez anos de pesquisa, o livro apresenta resenha, ficha técnica e curiosidades de bastidores de quase 300 filmes produzidos nos últimos 100 anos.

De clássicos como Morte em Veneza[bb] a filmes polêmicos como Transamérica, a obra traz o melhor da produção nacional e estrangeira.

O livro começa fazendo uma análise histórica do surgimento do cinema, em 1895, e chega até o fim da década de 1940 – época em que não havia tanta liberdade para abordar a temática LGBT.

Ainda assim, encontram-se boas surpresas, como o sinistro Festim diabólico, de Alfred Hitchcock, em que a homossexualidade dos protagonistas fica apenas subentendida. Outro destaque é o drama histórico A rainha Cristina, estrelado por Greta Garbo, que faz o papel de uma monarca bissexual.

Nos anos 1950, com a relativa abertura vivenciada depois do fim da Segunda Guerra Mundial, os filmes começam a abordar a homo, a bi e a transexualidade de maneira mais ousada. É o caso, por exemplo, de Glen ou Glenda, do polêmico diretor Edward D. Wood Jr., que fala sobre travestismo e mudança de sexo – isso em 1953. Outro sucesso da época é A malvada, com Bette Davis no papel de uma atriz de Hollywood que mantém um relacionamento platônico com a secretária.

A partir da década de 1960, aumentam as produções de cunho LGBT, inclusive no Brasil, apesar da censura promovida pela ditadura militar instaurada em 1964. Um dos destaques mundiais é Satyricon, dirigido por Federico Fellini, que retrata as vicissitudes do reinado do imperador romano Nero. Na Itália, Pier Paolo Pasolini provoca escândalo com Teorema. Em terras brasileiras, Noite vazia, de Walter Hugo Khouri, está entre os destaques.

Mas é a partir dos anos 1970 que o cinema LGBT dá uma guinada. A liberação sexual faz que a produção aumente progressivamente, chegando a mais de 5 mil filmes por ano. No Brasil, as pornochanchadas atingem o auge, alcançando grande sucesso de público. Entre as muitas pérolas da época estão Calígula, de Tinto Brass, Um dia de cão, de Sidney Lumet – protagonizado por Al Pacino, excelente no papel de um homem que assalta um banco para pagar a operação de mudança de sexo do companheiro -, e As lágrimas amargas de Petra von Kant, dirigido por Fassbinder. No Brasil, O cortiço, de Francisco Ramalho Jr., e A casa assassinada, dirigido por Paulo Cesar Saraceni, rendem boas bilheterias.

Na década de 1980, as produções LGBT continuam aumentando, no exterior e no Brasil. Respirando mais livremente com o fim da ditadura, nosso cinema se diversifica, indo de O beijo no asfalto, baseado na peça homônima de Nelson Rodrigues, a O beijo da mulher-aranha, de Hector Babenco. Ao redor do mundo, gays, lésbicas, bissexuais e transexuais são retratados em películas de diversos gêneros. É o caso de Fome de viver, estrelado por Catherine Deneuve e David Bowie, que encarnam um casal de vampiros em busca de novas vítimas na cidade de Nova York. Na Espanha, Pedro Almodóvar destaca-se com a Lei do desejo, protagonizado por um ainda desconhecido Antonio Banderas. Outro destaque é Vítor ou Vitória, estrelado pela até então muito bem comportada Julie Andrews.

Nos anos 1990, diminui ainda mais o preconceito dos espectadores e dos próprios atores, que antes temiam fazer papéis mais ousados. O lesbianismo e o travestismo ganham mais destaque. Entre as pérolas do período está Almas gêmeas, de Peter Jackson (anos depois vencedor de vários Oscar com a trilogia O senhor dos anéis). Uma das protagonistas é Kate Winslet, excelente no papel de uma adolescente apaixonada – e correspondida – pela melhor amiga. Outro destaque é Filadélfia, que ousou ao mostrar um protagonista homossexual que enfrentava a aids e rendeu a Tom Hanks o Oscar de melhor ator. É também a vez das comédias americanas, como Gaiola das loucas, protagonizado por Robin Williams, e Para Wong Foo, obrigada por tudo! Julie Newmar, com o galã Patrick Swayze no papel de um transformista.

De 2000 em diante, os filmes gays saem definitivamente das sombras e passam a concorrer de igual para igual com outras produções. Surgem películas engajadas, como Antes do anoitecer, que traz Javier Barden no papel do escritor cubano Reynaldo Arenas, e Milk – A voz da igualdade, que rendeu a Sean Penn o Oscar de melhor ator por sua atuação como o primeiro gay assumido a ocupar um cargo público nos Estados Unidos. Mas talvez o maior destaque da década seja O segredo de Brokeback Mountain. Estrelado por Heath Ledger (que morreria três anos depois de overdose) e Jake Gyllenhaal, o filme rendeu o Oscar de melhor diretor a Ang Lee e deixou na memória dos espectadores cenas belíssimas.

O autor

Stevan Lekitsch, 38, é paulistano. Bacharel em Comunicação Social com especialização em Cinema pela Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), já trabalhou em diversas mídias – tanto virtuais como impressas – voltadas para o público LGBT, como o portal Mix Brasil, a G Online, a OK Magazine e a G Magazine. Autor de dezenas de matérias sobre cinema, em 2005 adaptou para o teatro o livro O terceiro travesseiro (Edições GLS), de Nelson Luiz de Carvalho, obtendo grande sucesso de público. Atualmente, também é assessor de imprensa de grandes empresas.

Título: Cine arco-íris – 100 anos de cinema LGBT nas telas brasileiras
Autor: Stevan Lekitsch
Editora: Edições GLS
Preço: R$ 65,90
Páginas: 272 (17 x 24)
ISBN: 978-85-86755-48-4
Atendimento ao consumidor: 11-3865-9890
Site: www.edgls.com.br

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