Rick Bonadio deixa Arsenal, cria novo selo e investe no pop adolescente

Rick Bonadio é um profissional que trabalha movido completamente pela razão. Todas suas decisões são calculadas friamente e a emoção não costuma falar alto dentro do seu processo de gerenciar carreiras artísticas. O produtor-compositor-empresário sempre deixou claro que enxerga música como negócio. Não costuma investir em projetos fadados ao fracasso.

Se há um filão inexplorado na música nacional, lá vai Bonadio à procura de astros para preencher a lacuna. Foi assim quando lançou o Mamonas Assassinas, primeira banda de rock nacional desde a Blitz a agradar tanto o público adulto quanto o infantil. Depois, ao contratar grupos que misturavam hardcore e letras românticas, Bonadio praticamente criou o movimento emo-colorido nacional. E lá se vão 10 anos com seus pupilos ou ex-pupilos (como CPM 22, Hateen, Fresno, NX Zero, Strike e congêneres) no topo das paradas de pop rock do país.

Agora sua intenção é popularizar a música infantojuvenil. Afinal, artistas internacionais desse segmento dominam as paradas de sucesso e promovem grandes turnês mundiais desde o surgimento do Jackson Five, na década de 1960. Atualmente, Justin Bieber, Miley Cyrus e Jonas Brothers arrastam multidões por onde passam. “E por que no Brasil é diferente? Difícil entender. Desde o fim da dupla Sandy & Junior, não surgiu nenhum artista com esse perfil”, lamenta Bonadio.

Para resolver essa questão, ele fechou parceria com a Revista Capricho, da editora Abril. Todo talento musical que surgir através dos concursos culturais realizados pela publicação, passam a ser empresariados e produzidos por Bonadio. A primeira artista dessa leva foi Manu Gavassi. “Com menos de um ano de divulgação, o trabalho da cantora alcançou um relevante nível de popularidade e ela já lota casas do porte do Via Funchal”, ressalta Bonadio, que também cooptou o cantor teen Bruno Anacleto através do mesmo processo.

Contudo, Manu é mesmo a primeira estrela a brilhar no cast da Midas Music, gravadora criada pelo executivo no ano de 2010 com a prioridade de revelar novos artistas. A ideologia é a mesma da Arsenal Music, empresa fundada por Bonadio em 2001 e que foi adquirida pela Universal quatro anos depois. Ele, aliás, dirigiu a Arsenal Music até o ano passado. Mas, agora, só é responsável pelo gerenciamento da carreira dos artistas que trouxe para a casa (NX Zero, Fresno, Strike, Tulio Dek, Hardneja Sertacore, Gloria, Titãs e Dogão) e pela área de eventos. “Precisava destinar meus esforços para um projeto pessoal. Buscar novos talentos sempre foi minha tarefa predileta. E dentro de uma major essa ação é limitada”, conta ele.

Cast e negócios – A Midas conta hoje com 12 artistas novatos em seu cast. Além dos dois teens citados anteriormente, integram essa lista Vowe, Eric Silver, In Box, Onze 20, Replace, Rincon Sapiência, Sabonetes, Scarcéus, Sergio Britto e Valetes. “É um novo começo. A distribuição física dos discos será feita pela própria Universal, mas as vendas digitais são administradas por nós. Por enquanto estamos repassando os direitos de comercialização virtual para as lojas do ramo, mas em breve pretendemos criar um site próprio para isso”, adianta.

Entre os negócios desenvolvidos pelo selo Midas Music, há muito mais do que apenas gerenciamento de carreiras. Bonadio também desenvolve festivais para divulgar seus artistas. Um exemplo disso foi o Close-Up Live, que teve em sua escalação NxZero, Fresno, Tulio Dek e Gloria. “Nem todos serão grandes assim ou contarão com patrocínios. Mas gostaria muito de misturar artistas famosos do meu cast com os novatos nesses festivais. Isso é uma boa maneira de catapultar a carreira dos iniciantes”, acredita.

E já que a venda de discos não é mais rentável, Bonadio tem buscado novas maneiras de lucrar com seus artistas. Em parceria com agências de publicidade, o empresário encontrou formas de atrelar a imagem de seus artistas a marcas, sem necessariamente fazê-los virar garotos-propaganda dos produtos. Di Ferrero, vocalista do NX Zero, por exemplo, cantou o jingle de natal da Coca-Cola. Manu Gavassi recebe patrocínio dos Chicletes Adams e da Adidas. O Fresno, por sua vez, já esteve envolvido em ações de marketing com o chocolate MMs e refrigerante Pepsi. “Com isso, estamos envolvidos em várias ações e shows promocionais. Esse é um negócio que gera muito lucro para os artistas e para a gravadora”, conta ele.

Só novatos: apesar de sua experiência no mercado, Rick Bonadio é um empresário que nunca demonstrou interesse em gerenciar carreiras de artistas consagrados. As únicas exceções do seu cast atual são a banda Titãs e um de seus integrantes, o tecladista Sergio Britto. Para ele, essa é uma tarefa que exige muita dedicação e paciência. “O artista consagrado prefere trabalhar com um empresário pequeno, que possa cuidar exclusivamente de sua carreira. O profissional age quase como uma babá. Fora que quando a banda já tem uma história, sou eu que preciso me adaptar a forma dela trabalhar, e não o contrário. E isso é cansativo”, conta.

Aliás, dificilmente um medalhão aceitaria a divisão de cachê que o empresário estipula na maioria dos contratos que mantém. Segundo o próprio, nos três primeiros anos, ele investe na gravação de discos e divulgação do artista sem cobrar nenhum retorno financeiro ou parte do cachê. Se a banda fracassar, o contrato é rescindido. Se atingir o sucesso e o cachê for valorizado, 40% dessa quantia passe a ser de Bonadio. “É o mínimo que posso exigir dos artistas quando eles estouram, porque o investimento inicial é sempre grande. Esse esquema tem funcionado bem”, determina.

Sertanejo e rap – apesar das tacadas certeiras, nem sempre a pontaria de Bonadio é das melhores. Até hoje, ele não conseguiu emplacar um artista sertanejo. E olha que ele teve dois talentosos exemplares do ritmo nas mãos: Natália, vencedora do reality show Country Star, e a dupla Os Thomés. “Não sou inexperiente no ramo. Foi falta de sorte, mesmo. A verdade é que eu produzo e empresario poucos artistas desse gênero. Quem sabe se eu trabalhasse mais com sertanejo, já teria obtido êxito”, pondera.

Já o rap, por sua vez, é um estilo que o empresário adora e que pretende popularizar no Brasil. Afinal, ele foi o primeiro brasileiro a gravar um CD de rap, com a dupla Rick & Nando, em 1988. Até o momento, porém, o mais próximo que ele chegou do sucesso nessa área foi com o projeto virtual Dogão, em 2004. Suas apostas rappers no momento são Tulio Dek, Rincon Sapienza e o disco Projeto Paralelo, do NX Zero. “Para mim, reunir artistas de rap nesse disco do NX foi essencial para que um público numeroso conhecesse o trabalho de gente talentosa que tem pouco espaço, como o Emicida. Agora, é só questão de tempo até o gênero conquistar seu espaço no mainstream brasileiro. Não será rápido, nem fácil. Mas está para acontecer”, acredita.

Questões polêmicas – Jabá é uma palavra que Bonadio jura estar fora de seu vocabulário. Para ele, pagar jabá é desnecessário quando o produto é pop e com qualidade acima da média. “Eu, particularmente, nunca paguei. No caso do artista em início de carreira, planejo parcerias com as emissoras, mas jamais paguei em espécie para alguém tocar música de artista meu”, garante.

Bonadio também gosta de ressaltar que jamais se envolveu com captação de recursos via leis de fomento. Ele não critica diretamente quem o faz, mas assume que preferiria que a verba fosse destinada para o combate à pirataria. “Tem como rastrear e bloquear sites de downloads ilegais. O governo não faz porque não quer. Enquanto isso, artistas consagrados utilizam benesses da Lei Rouanet para financiar seus projetos. Tá certo que não é ilegal. Mas recomendável também não”, acredita.

Em paralelo ao seu trabalho como empresário, esse ano Rick continuará atuando como jurado do programa Ídolos, ao lado de Marco Camargo e Luiza Possi. Ainda na Record, o produtor será o responsável pela direção musical da versão brasileira da novela Rebelde. “Não produzirei o disco. Apenas cuidarei da direção musical da banda e dos shows”, comenta. (Por Helder Maldonado

 

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