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Wagner Moura está pronto para colher mais criticas positivas em sua carreira. Considerado um dos atores mais talentosos de geração, o baiano representa o personagem centra do filme VIPs, ele é Marcelo da Rocha, um homem à procura de si mesmo, que alimenta o sonho de aprender a voar e, nas suas aventuras, faz-se passar por muitas outras pessoas. Pelo papel, Wagner venceu o prêmio de Melhor Ator no Festival do Rio.

 

Moura Começou a ganhar projeção nacional com a peça A Máquina, de João Falcão, na qual atuava ao lado de Vladimir Brichta e Lázaro Ramos. Em apenas dez anos de carreira no cinema, já participou de 18 longas-metragens, como Carandiru, O Caminho das Nuvens, Cidade Baixa, Ó Paí Ó, Saneamento Básico e Romance. Seu papel de maior repercussão no cinema é o Capitão Nascimento de Tropa de Elite 1 e 2. Na TV, teve papel de destaque nas novelas A Lua Me Disse e Paraíso Tropical e na minissérie JK. No teatro, fez longa temporada como o personagem-título de Hamlet. VIPs, ele é Marcelo da Rocha, um homem à procura de si mesmo, que alimenta o sonho de aprender a voar e, nas suas aventuras, faz-se passar por muitas outras pessoas. Pelo papel, Wagner venceu o prêmio de Melhor Ator no Festival do Rio. Confira abaixo a entrevista com Wagner moura: 

 

Visto Livre: Como foram as primeiras conversas com o Toniko sobre o personagem?

 

Wagner Moura: Entendi que o Toniko, assim como eu e o Bráulio Mantovani (roteirista), enxergou nessa história a oportunidade de apresentar ao público um personagem complexo. O Toniko queria ir além da anedota do 171 que enganou geral. Resolvi fazer o filme porque saquei que o Toniko também queria tirar algo mais dali. 

 

Visto Livre: Por que você (ou vocês) decidiu não encontrar o verdadeiro Marcelo no trabalho de preparação?

 

Wagner Moura: Para mim, para a construção do meu Marcelo (verdadeiro também, já que existe ali naquele universo criado por nós), a figura do estelionatário não interessava. Muito pelo contrário: quanto mais eu procurava saber do cara, mais certeza eu tinha do que eu NÃO queria fazer. Não quis participar de um filme engraçadinho sobre um bandido. Não vejo a menor graça nisso. Há aí um posicionamento moral, mas o que para mim foi preponderante nessa (não) escolha, foi o fator estético. O personagem apresentado no roteiro do Bráulio e do Thiago Dottori tinha um potencial de complexidade dramática que o dito Marcelo real não tem a priori. 

 

Visto Livre: Como você definiria o Marcelo do filme: Um sociopata obsessivo, ou apenas um rapaz tentando preencher uma espécie de vazio interno?

 

Wagner Moura: Não tenho competência para fazer uma análise clínica sobre a condição mental do meu personagem. Ele certamente é um rapaz que vive num mundo diferente das demais pessoas, há uma evidente patologia ali. No entanto, arrisco dizer que não se trata de um caso de psicopatia. Até onde eu sei, o psicopata clássico é o sujeito quase

 

sem subjetividade, que não tem afeto nem consideração pelas pessoas, o cara que só pensa em seu próprio bem estar e que para isso é capaz de barbaridades, inclusive matar sem remorsos. Não sei se nosso Marcelo se encaixa nesse perfil. Gosto mais de pensá-lo como um menino em busca de si mesmo. Alguém que por alguma razão (e o filme dá algumas pistas) não se reconhece na vida que leva, ou pior, não se reconhece no próprio corpo e por isso se experimenta em vários outros. Essa capacidade de reinvenção, de poder ser quem você quiser, é extraordinária num contexto saudável e remete ao existencialismo. Mas é evidente que nosso personagem se perde nessa busca, e Freud pode nos ajudar a entender por quê.

 

 

 

Visto Livre: Você disse que voltou um pouco ao método Stanislavski para compor esse personagem. Como foi esse trabalho?

 

Wagner Moura: Esse é um filme psicológico. Quando comecei a atuar, eu era um artista sem formação acadêmica e fui buscar Stanislavski. Durante muito tempo, tudo o que eu fazia era construído sob um viés psicológico. Isso naturalmente mudou com o passar do tempo. 

 

Há trabalhos que não comportam Stanislavski – nada menos stanislavskiano do que Shakespeare, por exemplo. Mas no caso do VIPs, a construção psicológica serviu muito bem tanto para mim quanto para o personagem, que vai criando outras identidades, construindo-as e acreditando nelas com a fé cênica exigida pelos russos. 

 

Visto Livre: Você chegou a sugerir modificações no roteiro ou no perfil do Marcelo ao Toniko ou ao Bráulio?

 

Wagner Moura: Sim, algumas. Todas no sentido de afastar o garoto do risco de cair na figura fácil do “171 esperto”. O Marcelo acredita mesmo nos personagens que constrói. Ele não finge ser – ele é. Mas isso tudo já estava muito bem marcado no roteiro, foi por isso que me apaixonei pela história. 

 

Visto Livre: Você fez algum trabalho específico para compor o Marcelo adolescente?

 

Wagner Moura: Essa parte foi mesmo muito difícil, porque eu já tenho 34 anos. Fiz como o próprio Marcelo; acreditei e segui em frente. Quando vi algumas fotos minhas com 17 anos, também achei por bem perder alguns quilos para essa primeira fase. 

 

Visto Livre: E como foi o trabalho de marcar essa passagem do tempo – na segunda parte do filme, Marcelo já adulto, mas bastante diferente das outras pessoas à sua volta?

 

Wagner Moura: Uma coisa fundamental foi o trabalho da Donna Meirelles (preparadora de elenco). Passamos muito tempo juntos experimentando e conversando sobre o personagem, assim como com o Fred Pinto (diretor de arte), o Maurinho Pinheiro (fotógrafo), a Verô (Verônica Julian, figurinista), o Toniko… O visual de cada personagem foi exaustivamente discutido, e foi fundamental para me ajudar a marcar essa passagem de tempo. Gosto muito do resultado. 

 

Visto Livre: Como foi trabalhar com a Gisele Froes? E com a Arieta Corrêa? Houve algum exercício para ganhar intimidade com elas antes de filmar?

 

Wagner Moura: A Gisele é uma atriz extraordinária, que eu admiro já há muito tempo. O nó do Marcelo com a mãe é muito complicado, por isso a gente conversou muito sobre isso, eu Gisele e Toniko. Ensaiamos, improvisamos… Um processo que só seria possível com uma grande atriz. 

 

A Arieta é outra grande atriz que fez também um excelente trabalho com a Sandra, talvez a única personagem do filme que saca o Marcelo de verdade. Eu já conhecia a Arieta, mas a gente nunca tinha trabalhado junto, e foi maravilhoso também. A coisa que eu mais gosto nessa profissão são justamente esses encontros. Tenho uma

 

admiração enorme por atores, amo contracenar, e quando encontro pessoas como Gisele e Arieta, sinto que estou ainda na profissão certa. 

 

Visto Livre: Ser famoso pode atrapalhar o processo de interpretar um desconhecido que se passa por um famoso?

 

Wagner Moura: Não. Acho que ser famoso me ajudou a entender o mundo, a idéia de mundo que as pessoas têm de uma pessoa conhecida e a realidade mesmo da pessoa, que é sempre algo diferente. Adoro, por exemplo, o trabalho do Roger Gobeth no filme, que é um ator famoso interpretando outro. 

 

Visto Livre: Para você, quais são os temas mais importantes do filme?

 

Wagner Moura: Ver alguém em busca de si mesmo é sempre algo comovente. Essa busca é de todos nós, é nossa luta diária. Se encontrar, se entender, se perdoar, se reinventar, não se afastar de si próprio… O jeito equivocado que o Marcelo o faz é revelador da patologia dos nossos tempos, da cobrança por “ser alguém”, do vazio do mundo das celebridades (são “alguém” os que aparecem na TV?), da falta de afeto nas relações familiares, da enorme falta que faz um pai, da importância do amor de mãe. Mas o filme é também um atestado moral de que o caminho fácil não existe, por mais brilhante que seja o caminhante. 

 

Visto Livre: Por que a história do Marcelo tornou-se tão fascinante para o público e quais os componentes que tornaram essa fábula tão atraente a ponto de chegar ao cinema?

 

Wagner Moura: O público se diverte com a história de um picareta que enganou outros. O Marcelo da Rocha teve a cara de pau necessária para se dar bem em cima de playboys e celebridades de atributos duvidosos. Ele encarnou o espírito macunaímico do brasileiro esperto, do pícaro, do João Grilo, do Arlequim brasileiro, do Robin Hood vingador. Há aí um fator forte de identificação que faz com que o sujeito que passa a vida ouvindo desaforo do chefe se sinta vingado, se colocando na pele de um cara que se deu bem em cima dos “poderosos”. 

 

Visto Livre: Como foi trabalhar com o Toniko, como é ele no set? Você chegou a dar conselhos e orientações a ele, uma vez que você já atuou em vários filmes e ele estava em seu primeiro longa-metragem?

 

Wagenr Moura: Firmei uma parceria boa com Toniko. Um filme tem que ser feito com todo mundo jogando junto e a favor de um projeto, por isso é muito importante que haja conversas e ensaios antes para que se tenha certeza de que estão todos fazendo o mesmo filme, contando a mesma história – e isso nós tivemos. Houve um bom período de ensaios em que pudemos entender juntos a história que queríamos contar. Eu e Toniko trabalhamos cúmplices, vigilantes quanto a possíveis leituras equivocadas das cenas e das atitudes do personagem. Ele é um diretor que filma muito bem e é bastante perfeccionista quanto ao acabamento visual, além de ter sido decisivo em cenas como a que o personagem conta a história da base do DEA para os policiais. Eu tinha uma referência de um cara que contava histórias com objetos da internet, e o Toniko no set abaixou o tom da cena, fazendo com que ela ficasse bem mais crível. Não consigo entender um filme em que atores e diretores não se dão, ou “cada um faz o seu”. Isso não faz o menor sentido.

 

Assista ao Trailler de VIPs

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