Por Rui Martins direto de Berlim – Quem sai da África e vive na Europa é imigrante, mas quem sai da Europa e vive na África parece ter o nome de expatriado, missionário ou, se está numa missão ligada à saúde, é um humanitário.

 É o caso do filme Doença do Sono, do alemão Ulrich Koehler, ele mesmo filho de funcionários de organizações internacionais que viviam em missão humanitária, tendo estudado o primário, secundário e colegial no Zaire, hoje República Democrática do Congo.
O personagem principal do filme, feito nos Camarões, é um médico, Ebbo Velten, encarregado de um programa de tratamento contra a doença do sono pelo qual já viajou com a esposa por diversos países africanos. Porém, depois de 20 anos na África, com a filha estudando num internato na Alemanha, a esposa retorna ao seu país natal, a Alemanha, sem conseguir convencer o marido a acompanhá-la. Na verdade, ele não tem mais o que fazer, pois na sua região existe apenas um paciente afetado, mas as verbas continuam mantidas.
Por sua vez, Ebbo Velten desfruta, nos Camarões, de um certo prestígio junto à população que não teria jamais na Alemanha, onde como médico generalista trabalharia anônimo num simples consultório. Por isso e pela atração da África “primitiva e selvagem” prefere ir adiando seu retorno à Alemanha, mesmo porque tem também, em Camarões, uma família africana.
O filme mostra o drama do alienado, que não sabe mais se é ainda um alemão na África ou se já virou igualmente africano. O outro aspecto do filme é o do desvio de verbas, pois o programa de tratamento contra a doença do sono se baseia em estatísticas antigas. Enfim, chega à casa de Ebbo Velten um funcionário francês de origem africana, encarregado de atualizar a questão para a OMS. Embora de origem congolesa, mas com nacionalidade francesa, Alex Nzila, vive um outro tipo de alienação ou de identidade. Embora filho de africanos, ele chega numa África que não conhece e cuja língua desconhece, interessado em fazer rapidamente seu trabalho para retornar à França. Mas não pode contar com a ajuda de Velten, talvez temeroso de que uma verdadeira estatística possa significa o fechamento de seu ambulatório.
Fonte: Brasil de Fato

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