Humberto Gessinger (Engenheiros do Hawaii) e Duca Leindecker (Cidadão Quem) tiraram férias de suas bandas principais. Há cerca de três anos, os músicos resolveram interromper ótimos momentos profissionais para se dedicar a um projeto nada convencional e incerto. Batizado de Pouca Vogal, o duo formado pelos músicos gaúchos é uma experiência nunca antes realizada na música pop nacional.

Isso porque, apesar de serem apenas dois instrumentistas em cima do palco, as músicas são apresentadas com arranjos complexos. A pergunta é: como eles conseguem isso com uma formação enxuta? Simples (mas nem tanto): simultaneamente, Leindecker canta, toca instrumentos de corda e percussão com os pés. Enquanto isso, Gessinger também canta e toca instrumentos de corda, teclado com os pés e, vez ou outra, ainda faz solos de gaita. "Optamos por nos apresentar com essa configuração, pois só assim conseguiríamos escapar daquele formato de banda, do qual já estávamos saturados. Mas, por outro lado, não queríamos fazer algo do tipo 'voz e violão'", explica Gessinger.
 
Para promover o projeto, a dupla gravou um CD e DVD independente no ano de 2008 com repertório baseado nas suas bandas originais e em oito músicas inéditas. Ao mesmo tempo que começou a despertar o interesse do público, o trabalho também chamou a atenção da Som Livre, que se prontificou a distribuí-lo em nível nacional. O resultado dessa parceria tem sido sentido na agenda de shows do Pouca Vogal, que soma em média seis apresentações mensais. Abaixo, Humberto Gessinger conta outros detalhes do projeto.
 
 
 
Visto Livre: Quem sugeriu a criação do duo Pouca Vogal e como foi criada a identidade musical da banda?
 
Humberto Gessinger: Eu tinha a ideia de trabalhar com um power-duo faz muito tempo. Demorou para encontrar o cara certo e para que nossas bandas dessem um tempo nas suas agendas para colocar o projeto na estrada. A proposta é levar aos limites as possibilidades de dois caras no palco, sem usar trilhas pré-gravadas. Duca, ao mesmo tempo em que toca violão, faz percussão com os pés. Eu tenho um teclado especial para tocar com os pés enquanto toco viola caipira ou violão. Além disso, tem guitarra, harmônicas, piano. É uma sonoridade bem rica, que surpreende o público. Um show como as pessoas nunca viram.
 
Visto Livre: O PV é um projeto que alcança apenas fãs do Cidadão Quem e Engenheiros ou ele tem um público diferenciado?
 
Humberto Gessinger: Sem dúvida, os fãs das bandas foram os primeiros a chegar, mas já está se formando um público específico do Pouca Vogal.
 
Visto Livre: Por que optaram por se apresentar como "One Man Band", em vez de fazer um show com uma grande banda, já que vocês utilizam instrumentos diferenciados nas apresentações?
 
Humberto Gessinger: No Pouca Vogal a forma é inseparável do conteúdo. Tão importante quanto as canções é a forma como as estamos tocando. Se fosse para continuar com a mesma formação, seria melhor seguir com as bandas.
 
Visto Livre: Com esse formato mais intimista, em que tipo de casa vocês se apresentam?
 
Humberto Gessinger: Eu pensei que rolaria mais em teatros, mas logo no início tivemos experiências legais em grandes festivais como o Planeta Atlântida e no sambódromo de Manaus. O show foi muito bem neste tipo de evento. Em muitas cidades estou tocando nos mesmos espaços em que tocava com Engenheiros do Hawaii.
 
Visto Livre: Apesar de ser um projeto, o Pouca Vogal já está na ativa há três anos. Quanto tempo mais pretendem excursionar?
 
Humberto Gessinger: Não temos data programada para interromper o projeto. Seria legal gravar outro DVD registrando o amadurecimento do Pouca Vogal antes.
 
Visto Livre: O Pouca Vogal já excursionou ou pretende tocar no exterior?
 
Humberto Gessinger: Ainda não saímos do Brasil, mas seria um prazer.
 
Visto Livre: Quando a dupla der uma parada, você pretende lançar um novo disco de inéditas dos Engenheiros?
 
Humberto Gessinger: Tenho várias canções novas e é bem provável que retorne de onde parei, mas ainda não tenho planos objetivos. É possível que Engenheiros do Hawaii e Pouca Vogal sigam em paralelo. Sinceramente, no momento, estou 100% focado no Pouca Vogal. Agora estamos começando a sair mais do Rio Grande, temos muita estrada pela frente.
 
Visto Livre: Acredita que falte ousadia para o rock nacional feito atualmente?
 
Humberto Gessinger: São tempos diferentes, não só em relação à música. Não gosto de criticar as novas gerações, não sei que tipo de pedras eles estão encontrando pelo caminho.
 
Visto Livre: Como vocês enxergam o papel de uma gravadora na consolidação de uma carreira nos dias de hoje: necessária, desnecessária ou apenas uma parceira que pode ser bem utilizada principalmente em distribuição de discos?
 
Humberto Gessinger: O legal dos tempos atuais é que há várias formas de se realizar um projeto. Gravadora pode ajudar, mas já não é o único caminho. Fizemos o Pouca Vogal de forma independente, só depois rolou a parceria com a Som Livre.
 
Visto Livre: O DVD da banda serviu mais como registro ou o volume de vendas foi satisfatório?
 
Humberto Gessinger: Satisfez das duas formas. O objetivo inicial era fazer com que as pessoas se familiarizassem com um formato inédito, completamente novo. A venda foi uma consequência disso e me surpreendeu positivamente.
 
Visto Livre: Foram criadas algumas outras estratégias de marketing para lucrar com a marca Pouca Vogal, como venda de produtos relacionados à banda?
 
Humberto Gessinger: Temos uma parceria com a Stereophonica (www.stereophonica.com.br), que vende camisetas, canecas, bandanas e outros produtos, além de nossos discos e livros. Eles têm nos acompanhado na estrada.
 
Visto Livre: Apesar de algumas bandas mais novas terem atingido sucesso em nível nacional, o rock gaúcho ainda hoje sofre certo boicote por parte da mídia paulista. Como vocês enxergam esse bairrismo atrasado por parte dos jornalistas?
 
Humberto Gessinger: É, estas coisas acontecem. No caso dos Engenheiros do Hawaii, analisando em retrospectiva, até foi bom: acabou nos fortalecendo e criando uma relação mais próxima com os fãs.
 
Visto Livre: Humberto, como você enxerga o sucesso dos Engenheiros, que mesmo tendo surgido na década de 1980 e sem ter se rendido aos modismos das épocas pelas quais passou, sempre teve seu público renovado?
 
Humberto Gessinger: É um público muito fiel e que já cobre algumas gerações. Acho bacana também que seja um público distribuído por todas as regiões do Brasil. Não gosto de vê-los como consumidores, assim como não gosto de pensar que eu sou um produto. Talvez esteja aí a chave desta parceria artista/público: música em primeiro lugar. Em 2010 lancei o livro "Pra Ser Sincero", em 2011 lanço o "Mapas do Acaso". Nas sessões de autógrafo, tenho tido um contato mais próximo com os fãs e fico muito emocionado com o carinho. E muito orgulhoso, também. Assim como se conhece a árvore pelos frutos, se conhece um artista, além da obra, pelos fãs.

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