O RPM anunciou que volta a se reunir novamente neste ano. A notícia pegou o mercado e os fãs de surpresa, já que a banda não se separou apenas uma, mas duas vezes em sua história. E nas duas ocasiões, os rompimentos não foram exatamente amigáveis.

 

Muito pelo contrário. Na primeira vez, em 1989, desentendimentos, mágoas, despreparo para lidar com a fama e egos inflados foram algumas das causas citadas pelos próprios músicos para explicar o fim da banda de rock brasileira mais popular à época. Mas eles superaram esses entraves e voltaram a se reunir em 2002, quando gravaram um projeto ao vivo para a MTV. O CD e DVD MTV RPM 2002 continham releituras de clássicos como Olhar 43, mais seis músicas inéditas. Mesmo sendo sucesso de vendas, o trabalho não foi o suficiente para que a banda trilhasse caminhos tranquilos.
 
Um outro desentendimento culminou num novo fim. E tome acusações de todos os lados. Alguns músicos se diziam insatisfeitos com a nova sonoridade da banda. Mas o fato que mais incomodou os integrantes foi o vocalista Paulo Ricardo ter registrado a marca RPM apenas em seu nome, o que desencadeou discussões e processos. Hoje, no entanto, a situação está resolvida.
 
Afinal, com o amadurecimento pessoal e profissional, os músicos ficaram mais conscientes de seus atos e do legado que o RPM tem na música nacional. Por isso, desde 2007, quando se apresentaram no Domingão do Faustão, ensaiam uma volta triunfal – que foi postergada por conta dos projetos pessoais dos músicos Paulo Ricardo (vocal e baixo), Luis Schiavon (teclado), Fernando Deluqui (guitarra) e P.A. Pagni (bateria).
 
Contudo, depois de tanto tempo longe dos palcos, a banda finalmente anunciou seu retorno para 2011. E, dessa vez, terá como "quinto membro" o empresário Aldo Ghetto, da Ghetto Produções. Segundo Schiavon, essa volta só foi possível porque todos os membros do RPM concordaram em abrir mão de seus projetos solos. "Essa reunião não poderia ter prazo de validade. Eu não largaria meu posto de diretor musical da banda do Domingão do Faustão, se a retomada na carreira da banda não fosse algo sério e com projetos a longo prazo", explica o tecladista, que junto de Paulo Ricardo concedeu ao Visto Livre Magazine a primeira entrevista após o anúncio do retorno.
 
Visto Livre: O que levou vocês a se reunirem novamente?
 
Luis Schiavon: Desde quando nos separamos por conta de várias divergências, no ano de 2002, jamais deixamos de conversar e demonstrar interesse em reunir o RPM no futuro. Em 2008, lançamos uma caixa comemorativa aos 25 anos da banda, o Marcelo Leite escreveu a biografia "Revelações Por Minuto" e ainda participamos do Programa Domingão do Faustão (Globo). No começo de 2010, soubemos que a Globo faria o programa "Por Toda Minha Vida" sobre a banda. E, assim, tudo convergiu para que retomássemos a carreira da onde paramos no início da década passada.
 
Visto Livre: Quando a banda voltou da primeira vez, em 2002, vocês chegaram a gravar faixas inéditas que se transformariam em um disco de inéditas. Mas esse projeto foi engavetado. Dessa vez, um disco de inéditas será lançado?
 
Schiavon: Tá difícil, né? Um projeto 100% inédito do RPM não é lançado há mais de 20 anos. Mas agora lançaremos um disco com material novo. Se tudo caminhar como planejamos, em maio o disco estará nas lojas.
 
Visto Livre: Vocês pretendem voltar com o RPM permanentemente ou já têm um plano para se separar e retomar as respectivas carreiras solo?
 
Schiavon: Quando cogitamos retornar com o RPM, pensamos que daria para conciliar as carreiras paralelas com a banda. Mas, passado algum tempo, percebemos que o RPM consome 130% do nosso tempo. Não tem como se dedicar a outros projetos, tanto que deixei a banda Domingão do Faustão. Daqui a quatro, cinco anos, podemos dar uma pausa para lançar discos solo, viajar. Mas por ora, estamos nos dedicando apenas à banda. Isso porque queremos criar discos que sejam importantes na história da música nacional, como foram nossos primeiros.
 
Visto Livre: Na década de 1980, vocês tiveram o Ney Matogrosso como diretor de shows. Hoje, pretendem se apresentar em uma super produção nesses moldes ou o cenário será mais simples?
 
Paulo Ricardo: Gostaríamos de retomar aquela energia de banda bem ensaiada e preparada. Isso compensa a escalação de orquestra e cenários grandiosos. Mas, de qualquer maneira, estamos discutindo com o diretor Ulysses Cruz como será elaborado nosso palco.
 
Visto Livre: O que podemos esperar de mudança no som do RPM?
 
Schiavon: Assim como toda banda que começou na década de 1980, tivemos influências de artistas que faziam sucesso àquela época. Estamos finalizando a composição de músicas e dando início a elaboração de arranjos. Colocaremos guitarras pesadas, bateria precisa, elementos eletrônicos e outros atributos tradicionais da nossa sonoridade. Mas o som não será oitentista.
 
Paulo Ricardo: Daremos um update no nosso som. Já temos uma sonoridade que é reconhecível logo nos primeiros 10 segundos de música. Mas vamos nos atualizar. Continuaremos sendo uma banda que não economizará com a inserção de teclados. O nosso som novo beberá em fontes como The Killers, Muse e Blur.
 
Visto Livre: Qual a avaliação que vocês têm sobre o rock nacional atual e como vocês se encaixarão nessa nova fase?
 
Paulo Ricardo: Não dá para prever. Nosso público é abrangente. Apesar dos adolescentes estarem ouvindo outro tipo de som hoje em dia, eles podem vir a gostar do que fazemos. Afinal, até a "doença" da adolescência tem cura. Mas não vamos disputar mercado com emos, por exemplo, porque temos 30 anos de história. Estamos em um patamar diferente. Só digo que faremos música que gostamos de tocar. Espero que o mercado aceite bem isso.
 
Visto Livre: Vocês gostaram do resultado final do programa "Por Toda Minha Vida", da Globo, que abordou a história da banda?
 
Schiavon: O meu grande amigo Silvio Essinger foi quem colheu as informações. Ele é um ótimo profissional. Mas, mesmo assim, o Silvio teve tempo limitado para abordar nossa história, já que o programa tem cerca de 40 minutos. E o que ele colheu de informações era suficiente para filmar uma minissérie. Dessa maneira, não teve como o programa não ser um pouco superficial. Mas o "Por Toda a Minha Vida" me surpreendeu e foi ainda mais a fundo do que eu imaginava sobre determinados assuntos, como por exemplo, a relação entre os músicos, que foi fielmente retratada. Eles conseguiram um resultado satisfatório. Muita coisa passou batido, óbvio. Mas, tudo bem, o Essinger e o Ricardo Waddington mataram a pau. Cometeram alguns erros, como terem me colocado fumando, sendo que nunca traguei um cigarro na vida. Mas tudo bem.
 
Visto Livre: Paulo Ricardo, o Fernando Deluqui pleiteia cantar algumas músicas nesse retorno da banda. Você o ironizou num programa de rádio quanto ao assunto. E aí, isso acontecerá mesmo ou não?
 
Schiavon: Com a licença do Paulo, eu que estou fora da história vou falar. Fiquei sabendo da entrevista na rádio e achei tudo muito cômico. O Paulo participou de um programa da CBN, apresentado pelo ator Dan Stulbach, e acabou tocando no assunto de forma bem humorada. A verdade é que o Fernando tem uma carreira paralela, que é bem sólida. O trabalho dele é respeitável e tem tudo a ver com os gostos dele como guitarrista, cantor e compositor. Já o RPM tem uma estética muito clara e diferente disso. Colocar o Nando para cantar é a mesma coisa que esperar que o Charlie Watts assuma os vocais dos Stones. Ou querer que o goleiro Felix jogasse na linha na seleção de 1970.
 
Visto Livre: Paulo Maluf processou vocês em 2003, por ter o nome dele citado na música "Alvorada Voraz". Como essa situação foi contornada e o que acham da liberação dele para assumir o cargo de deputado, mesmo estando com a ficha suja?
 
Schiavon: Pois é. Ganhamos o processo. Agora, vou dar uma opinião minha. Se o Maluf quiser, pode me processar novamente. Pra mim, ele deveria estar na cadeia. Não sei como esse cara está solto. Ele ter sido absolvido me leva a descrer cada vez mais da justiça desse país. Chega a ser absurdo um cara que aprontou o que ele aprontou estar solto para assumir um cargo público, enquanto um necessitado que rouba um pacote de leite no supermercado, fica cinco anos em cana e não consegue sair. Esse tipo de coisa continua me indignando.
 
Paulo Ricardo: Voltando ao episódio de termos citado o nome dele em "Alvorada Voraz". À época, ele pedia indenização de R$ 10 mil. Mas perdeu. Nós poderíamos ter pedido um ressarcimento de custos, mas desencanamos. Melhor ficar longe desse tipo de gente.
 
Visto Livre: Paulo, como é a relação comercial entre você e a Itaipava? Ela pode ser estendida ao RPM nessa nova fase?
 
Paulo Ricardo: São três anos de parceria. Itaipava é uma cerveja que apoia músicos e esportistas, como o Cesar Cielo. Eu represento o pop rock dentro da marca e a parceria deve se estender, sim, ao RPM. Esse relacionamento atenderá aos novos moldes de gerenciamento de uma carreira artística, que não pode mais depender exclusivamente de gravadoras.

Comentários

Essa parte sobre o Deluqui o Schiavon tentou tomar a resposta mas queria ver o que o Paulo Ricardo diria…A parte que achou comico que foi comica….será que ele ouviu mesmo a entrevista? Achei os comentários do Paulo Ricardo de muito mau gosto.